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Arte
médica


A medicina contém em sua alma duas substâncias que se complementam.
A primeira é a possibilidade humana de compartilhar a dor do outro; a segunda é o impulso inato de aliviar essa dor.
Duas substâncias de natureza diferente: uma reside no sentimento, a outra na ação; alguém tropeça e cai à minha frente, de pronto a ajudo a se levantar. A capacidade humana de sentir o outro cria o campo em que a ação curativa se desenvolve.
A interação entre esses dois polos é muito variável: do pajé ao neurocirurgião, as diferenças são enormes. Mas, em comum, interagem a compaixão e a técnica.
Quando observamos essa interação ao longo da história da medicina, podemos perceber inclusive um viés fascinante da própria história da humanidade, já que não há grupo humano que não contenha seu espaço de cura.
Os longos rituais da medicina tibetana ou as danças sagradas e curativas de nossos índios são como mostras refinadas de suas culturas e se transmitem imutáveis através das gerações.
Já a inédita explosão do conhecimento científico que caracteriza nosso tempo, reflete-se na ousadia da medicina moderna, em seu desejo incontido de superação.
Mas não deixa de ser verdade que a qualidade da mistura entre técnica e compaixão define a qualidade da medicina que praticamos: um predomínio excessivo da técnica torna o ato médico frio, comercial. Falta um olhar quente, falta a cumplicidade. Falta a postura da escuta.
Há, no entanto, uma proporção mágica em que a medicina se transforma em arte. Um tipo de arte distinta da música ou da pintura, que dependem dos sentidos para chegar ao sentimento. A arte médica atinge o sentimento de forma direta.
Quando me sobra algum tempo no dia a dia do hospital, circulo por ele como se não o conhecesse. Gosto de começar pelo berçário, observando a plateia sentada frente ao palco sobre o qual brilham seres recém-chegados, emanando vida, despertando uma alegria espontânea àqueles que tanto os desejaram ver neste mundo.
Há risos no ar, expectativas compartilhadas, momentos de contemplação silenciosa.
Desço dois andares e me aproximo da UTI, meu campo de trabalho mais frequente. Ali cruzo com olhares inquietos que se contaminam; ouço um choro abafado, vejo abraços de uma estranha beleza diante da realidade inexorável, definitiva. Mas há também muitos olhares de esperança, únicos em seu brilho.
O contraste enorme entre as duas cenas sempre me deixa em suspenso, em busca de alguma coerência, de uma possível compreensão.
Um dia caiu a ficha: no berçário, desemboca o misterioso canal que une o mundo celular ao mundo social, da fecundação ao parto; já na UTI, ancora-se a ponte que liga o mundo social ao desconhecido, ao inescrutável.

No umbral dessa ponte, a medicina como arte não só se faz necessária como nos convida a uma escolha: ou vestimos o escafandro protetor da pura técnica ou entramos no drama de peito aberto.
A bordo do escafandro, podemos nos sentir confortáveis: estamos em cena, mas não fazemos parte dela. Explicamos sem participar e as palavras nos ajudam: diagnósticos, resultados e prognósticos formam a barreira que nos protege. Podemos até lançar mensagens e olhares de simpatia; mas serão sempre formais.
Mas se ousamos entrar de peito aberto, somos não só diretor de cena enquanto médico, mas também personagem enquanto ser humano; sofremos junto e por isso mesmo nos tornamos mais resilientes (ou ¨mais humanos¨, essa expressão que tantas vezes ouvi como uma espécie de sinônimo de presença médica verdadeira).
Trata-se no fundo de escolha íntima, impossível de agregar a currículo de ensino por ser fruto de percepção direta e não da compreensão intelectual de um conceito exposto. Experiência existencial de contato com a alma da medicina: a melhor técnica envolta em autêntica compaixão, elevando a prática médica ao status de arte.
Um exemplo emblemático do exercício dessa arte nos foi deixado há 80 anos pelo holandês Willem Kolff. Recém-formado, Kolff foi deslocado no início da guerra para trabalhar em um pequeno hospital no Norte da Holanda. Ao cuidar de um paciente de sua idade, presenciou dia a dia seu crescente sofrimento e sua trágica morte em consequência de uma insuficiência renal.
Essa vivência o marcou de tal modo que ele se dispôs a uma tarefa utópica: desenvolver uma maneira de remover do sangue as toxinas que o envenenam quando os rins deixam de funcionar.
Partindo do conceito químico de diálise (passagem de moléculas através dos poros de uma membrana), iniciou a construção da sua primeira máquina de hemodiálise, utilizando o que encontrou em volta, de motor de máquina de lavar roupa a pele de salsicha. Persistiu com imensa garra em seu projeto, aperfeiçoando o método e vencendo todo o tipo de obstáculo, até obter seu primeiro caso de sucesso já no final da guerra.
Havia então construído cinco máquinas, que ele doou a cinco centros médicos de importância na Europa e Estados Unidos, para onde se mudou, ligando-se à Cleveland Clinic Foundation e posteriormente à Universidade de Utah, onde liderou pesquisas seminais no campo de órgãos artificiais, até se aposentar aos 86 anos.
Foi, portanto, o pai legítimo da hemodiálise que hoje, refinada pelo tempo, permite a milhões de pessoas sobreviverem à perda de seus rins. E nos deixou seu exemplo de compaixão ativa, de persistência inquebrantável e de amor à arte médica. Que sejamos fiéis a ele.

Dr. Antônio Junqueira